nada de tangível, nada de narrável é perfeito, ergo, também este espaço nascido há quase quatro anos, morto e renascido há quatro minutos, filho e neto de outros espaços que se perderam, esboroados pelos ciclones da realidade virtual, frutos todos eles de vidas, de sonhos, de palavras, também eles,criadores e criados, são imperfeitos...
as horas que se perderam a tentar redecorar esta casa não foram jamais horas perdidas, mesmo que as tecnologias tenham teimado, depois, em malfazer, impedindo a concretização absoluta de tudo aquilo que se imaginou. foram horas que esperemos confortem quem aqui vive.
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decidimos de forma ditatorial que os espaços visuais antigos estavam demasiado saturados, de vermelho, de rotina. avançamos, por isso, para o azul que preenche o engano dos nossos olhos, pensando vê-lo nos mares de profundezas intocáveis, sonhando tocá-lo no infinito céu. decidimos igualmente trazer imagens que nos tocam, que nos impelem a pegar nas letras e batê-las em castelos inexpugnáveis.
a cadeira vazia, perante os livros. a cadeira que espera por quem a tome como sua, e que nela estude, que nela leia, que nela escreva. que nela aspire aquilo que de mais profundamente nos faz homens, as palavras. ou simplesmente os silêncios meditativos sem gestos.
a cidade que a este país moribundo deu nome, mas infelizmente não os genes. a cidade que espera por quem, de um recanto improvável, a venha namorar para a eternidade de noites iluminadas por mais sóis que as estrelas que cintilam longínquas.
o estádio e a pequena baliza que, na confluência das linhas da perspectiva, representa o objectivo máximo, único, singular de quem se presta às loucas casualidades do jogo.
a guitarra por dedilhar, resplandecente, símbolo da música que nos embala a cada momento, mas igualmente dos anos que deram início a esta caminhada conjunta rumo a um qualquer campo de estrelas.
as capelas imperfeitas, "símbolo material de que este país não se cumpriu", e cada vez mais se afasta de se cumprir...
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a citação por ora presente é de Fernando Pessoa:
Não quero nada, nem palavras, nem verdade.Umas e outras o que são?
Pedaços cortados da realidade,
Momentos de diástole do coração.
Não quero nada. Pensei até não pensar.
Imaginei até me agarrar de medo
Ao mais pequeno bocado de céu ou de mar
Só por ser e por isso me não meter medo.
Nexo inútil entre o que sou e quem sou,
Metafísica falsa das sensações mortas...
Não quero nada. Sou um mendigo cego que vou
Batendo, numa vila deserta, a todas as portas...
13/05/1932 (in Poesia 1931-1935 e não datada, Assírio&Alvim)
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já por cá passaram noutros tempos:
Raúl Brandão, no prefácio que aditou às suas memórias...
Janeiro de 1915
Se tivesse de recomeçar a vida, recomeçava-a com os mesmos erros e paixões. Não me arrependo, nunca me arrependi. Perdia outras tantas horas diante do que é eterno, embebido ainda neste sonho puído. Não me habituo: não posso ver uma árvore sem espanto, e acabo desconhecendo a vida e titubeando como comecei a vida. Ignoro tudo, acho tudo esplêndido, até as coisas vulgares: extraio ternura duma pedra. Não sei – nem me importo – se creio na imortalidade da alma, mas do fundo do meu ser agradeço a Deus ter-me deixado assistir um momento a este espectáculo desabalado da vida. Isso me basta. Isso me enche: levo-o para a cova, para remoer durante séculos e séculos, até ao juízo final.