"A nação está incompetente para utilizar os valores dos seus súbditos, esses valores que por vezes são competências universais e que, por culpa da nação, ficam separados da utilidade comum ou mal aproveitados. A nação não pode nem sabe garantir o desenvolvimento natural e legítimo de cada um dos seus súbditos, quando não é ela a própria que imprudentemente esmaga as capacidades individuais dos portugueses. E se em verdade a nação não despreza os valores e capacidades particulares faz pior do que isso: não os sabe utilizar. Sistematizada, burocratizada, a nação perdeu a flexibilidade necessária para permitir o desenvolvimento das classes e profissões. Todos os obstáculos, todos os atritos, estão sistemática, burocraticamente organizados numa barreira inexpugnável para derrotar sem piedade a mais corajosa e a melhor das iniciativas. E não se confunde aqui obstáculos e atritos com dificuldades a vencer, problemas a resolver; não se confunde. Uma coisa é uma administração negativa, outra coisa é uma subida difícil. E aqui não se trata de uma subida difícil, trata-se simplesmente de administração negativa. Não é um caminho cheio de exigências mas honroso o que a nação põe diante dos nossos olhos, mas muito simplesmente impossível. Nenhum de nós tem receio do que seja custoso e difícil desde o momento que dependa de nós apenas vencer o difícil e o custoso; mas se a toda a hora e a todo o momento não temos diante de nós senão o impossível acabamos finalmente por ficarmos convencidos. Mas qual é afinal esse impossível? Qual é? É viver! É de viver que se trata. E é viver que é impossível em Portugal.
José de Almada Negreiros, in Manifestos e Conferências, ed. Assírio&Alvim

ainda o ano não atingiu o término do seu primeiro duodécimo, e já vai longo, exagerada e exasperantemente longo. entre outrora belos tapas-vistas intempestivamente arrancados do muro e demais rajadas de fezes, o ter finalmente (e digo finalmente por há já alguns meses que se me deparo quase diariamente com pessoas no mesmo estado) ficado constipado é sobremaneira um acaso menor. até porque, e não obstante os reveses que o mesmo significa, não deixa de trazer consigo algo de positivo numa amálgama paradoxal de prós e contras que se anulam e beneficiam mutuamente. por um lado, a respiração, o movimento, a acção, ou até mesmo o simples permanecer alerta tornam-se mais complicados, mais exigentes e custosos em termos físicos; por outro, a força dos sentidos parece esvair-se numa insensibilidade face às tangibilidades do mundo, abrindo assim um espaço alargado para o trabalho mental. não que a leitura, em todas as demais ocasiões, se revele improfícua. apenas que, e apesar da vontade de dormir mais um pouco que me assola compassadamente certa, se torna mais esclarecida e esclarecedora, livre que está das distracções empíricas. permitiu, tudo isto, que se revelassem a esta atrasada criatura algumas questões fundamentais da existência intelectual, cultural e por aí fora do século xx português, ao ler o que josé de almada negreiros escreveu, manifestou, conferenciou.
i) individualidade e colectividade, duas palavras que, com seus sinónimos e/ou similares, pululam amiúde do cerne destes textos. o indivíduo existe, afirma-se, e há-de ter o seu carácter único; no entanto, essa excepcionalidade deverá estar integrada num conjunto mais vasto de características definidoras de um povo, de uma nação, ou seja, o indivíduo existe dentro de um colectivo a que vai buscar aquilo que é, e, simultaneamente, o indivíduo contribui para a existência assertiva do colectivo. resumindo, o indivíduo forma-se no colectivo <---> o colectivo depende do indivíduo. fruto dessa relação de dependência, é obrigação do colectivo proporcionar aos seus indivíduos todas as condições para que possam materializar a sua importância. ii) se o colectivo tem uma, digamos assim, personalidade, é-lhe mais importante ter um propósito enquanto nação, propósito, esse, a ser perseguido no continuum histórico. ora, se este evolui, necessariamente a nação tem de evoluir, não no seu espírito, mas antes na sua acção. por isso a crítica ao imobilismo nacional português - um povo que se ficou no esplendor arrojado e pioneiro do século xv, para nunca mais acompanhar o progresso, palavra-chave que justifica e resume o ideal de futurismo. o carro de corrida há-de ser mais belo que a vitória de samotrácia não porque esta seja uma obra menor*, mas simplesmente porque é o belo do hoje, logo inclui em si, diríamos hoje, no seu genoma, também o belo de ontem e de anteontem... iii) se se faz a apologia do espírito colectivo, ordenado, objectivo, por um lado; e do progresso, pelo outro, percebe-se, em grande parte, o inicial alinhamento, e posterior desencanto (se não de todos, pelo menos de parte - veja-se fernando pessoa e as críticas à ditadura das maiúsculas) dos "modernistas" portugueses face à ditadura militar e conseguinte estado novo. durante o alvor do novel sistema político, teriam pressentido, ou antes desejado?, a força do estado a dirigir um colectivo, comopelo menos desde o fim da segunda dinastia, desde o nevoeiro de alcácer-quibir, início e conclusão da mitologia sebastiânica, não se via. na sequência, este revelou-se, afinal, um estado mais preocupado em alimentar a vil tristeza, pobre e apagada no tempo de um portugal adormecido. nem carro desportivo, nem vitória de samotrácia, o que de belo se queria apologizar seria a charrua. iv) enfim, a arte, esta arte que se tentava aqui propalar, princípio performativo da poesia, génio humano primordial e presente no âmago de cada um, ainda inteligível, intangível, prestes a ser espoletado pela operacionalização artística, perdeu um apoio que pensou ter sido prometido pelo devir histórico. resultado, quedou-se o país, a arte, a poesia, num marasmo burocrático que ainda sufoca, agora que vamos entrando na velocidade de cruzeiro do século xxi. a cada século, mais cem anos atrasados, retidos no trânsito das areias do norte africano.

para concluir, e porque nem tudo em portugal ficou parado no tempo, aproveitem para saber a freguesia a que agora pertencem.



* apesar de que se encontra incompleta. sobre isto, a minha teoria é a de que a vitória de samotrácia e a vénus de milo foram montadas em peças, entregues mensalmente pelas edições planeta d'agostini, mas que, como faltaram os últimos números da colecção, se quedaram assim.

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